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17/01/2020 - 08:30:00

Novo coordenador científico vê Luxemburgo "à frente do tempo" e ajustado ao DNA do Palmeiras

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Contratado a pedido de Vanderlei Luxemburgo, com quem trabalhou no ano passado, o novo coordenador científico do Palmeiras discorda de quem pensa que o técnico não está atualizado. Para Daniel Gonçalves, ele está, na verdade, à frente do tempo.

Com passagens por Vasco (além de 2019, também entre 2003 e 2014, em outras funções), Criciúma (2015) e Flamengo (entre 2015 e 2018), ele cita como exemplo a proximidade do treinador com as ferramentas modernas à disposição do clube.

– Apesar de estar há bastante tempo na praça, um treinador longevo, é um treinador de vanguarda. Perceba quantas vezes ele está do lado do fisiologista controlando a carga de treinamento em tempo real pelo GPS – diz o profissional, que é formado em Educação Física e Ciência do Esporte, tem licença A de treinador da CBF, MBA em Administração Esportiva e pós-graduação em Fisiologia do Exercício.

– Ele já atua de maneira direta, fazendo intervenções no treinamento dele com informação tecnológica em tempo real. Somente um treinador atento a questões tecnológicas, de vanguarda, atuaria assim. Eu vejo o Vanderlei um treinador à frente do seu tempo por conta dessas questões. Ele consegue ter um entendimento do todo. A visão dele é holística, ele sabe o quanto diversas situações podem impactar dentro do campo de jogo.

No entendimento do todo, está a preocupação em fazer o Palmeiras voltar a ser um time que tenha mais posse de bola e que proponha o jogo. Nas palavras de Gonçalves, um time com o DNA do clube. O que, para ser colocado em prática em campo, precisa passar também pelo trabalho diário do Núcleo de Saúde e Performance com os atletas na Academia de Futebol.

– O trabalho indoor, dos outros processos, gira sempre em torno do modelo de jogo. O modelo de jogo é capitaneado, liderado pelo treinador, mas existe já um modelo de jogo ideal de acordo com a história do Palmeiras desde 1914. Cabe à gente entender isso e aplicar nossos conceitos, sejam eles de filosofia, de processo, ao modelo de jogo que vai ser instituído pelo Luxemburgo, baseado em todos esses valores – explica.

Veja outros trechos da entrevista:

Que estrutura você encontrou no Palmeiras?
– Uma estrutura top. A gente já vinha acompanhando a evolução. O Palmeiras é um clube muito acolhedor e, ao longo do tempo, tem realizado eventos, congressos, possibilidades de receber profissionais de outros locais, outros centros, para conhecer a estrutura. O Palmeiras abre o CT para outras equipes que vêm jogar em São Paulo. Então, você acaba conhecendo, tendo interação não somente com os profissionais, mas também conhecendo a estrutura física. Uma estrutura não só do ponto de visto tecnológico e físico adequada, mas também em termos de processo, porque você consegue adequar tudo aquilo que tem de equipamento e estrutura física a um processo adequado para permitir que o atleta, individualmente, e a equipe, coletivamente, se desenvolvam.

No seu cargo atual, de controle dos processos entre as áreas da parte física, quando há uma mudança de clube, leva muito tempo para adaptação?
– Cada clube tem que ter o seu processo, porque cada clube tem sua cultura, suas particularidades, suas peculiaridades, seu DNA. Nós, como profissionais, temos que entender o quanto antes como é o DNA dessa equipe. O estabelecimento do processo é de acordo com essa cultura implementada, não o inverso. É claro que exige uma adaptação. Aos poucos, a gente vai interagindo mais com os profissionais, conhecendo os processos. Obviamente que também colocando nossas sugestões, nossos métodos, nossas intenções, para que a gente possa adequar em prol do objetivo maior, que é levar o Palmeiras em 2020 à conquista de títulos.

O Luxemburgo diz que tem dado treinos um pouco mais puxados do que de costume porque quer um time que pressione o tempo inteiro, que tenha a bola de volta rapidamente. Isso interfere no trabalho que vocês coordenam lá dentro, certo?
– Perfeitamente, sem sombra de dúvida. Qual o objetivo? O Palmeiras tem a necessidade de ser uma equipe dominante. Para ser uma equipe dominante, tem que recuperar rapidamente a bola, tem que ser muito efetiva no pós-perda. Para ser efeito no pós-perda, tenho que ser agressivo nessas ações de retomada, de pressão ao portador (da bola). Ele tem falado em criar um modelo de agressão logo na perda, na transição defensiva, até seis segundos, ou até dez segundos, e depois vamos estabelecer outras estratégias, mas de forma que a gente seja sempre agressivo na retomada da bola. Para isso, a gente precisa adaptar algumas situações. Por exemplo... Muito se diz que o treinamento na areia diminui velocidade por conta da reatividade do solo. Perfeitamente explicável, Terceira Lei de Newton, ação e reação. Se você tem um piso macio, em relação a um piso mais duro, que é a grama, a tendência é não reproduzir aquela adaptação de maneira adequada. Só que o objetivo não é velocidade.

Qual é o objetivo?
– O objetivo é força. Como a areia tem resistência maior do solo, vai me permitir fazer arranques e desacelerações efetivas para que eu reaja rápido e pressione o portador adversário. Então, o trabalho na areia tem como objetivo principalmente força e resistência especial. Quando você percebe que o atleta está já nesta situação ofegante, com uma postura de inclinar o tronco, ele está necessitando combater uma acidez ou uma acidose metabólica. Isso é promovido devido a um trabalho muito intenso. Essa situação de resistência especial também acontece no jogo, nos minutos finais de uma partida ou num momento de adversidade.

– Aí tem o outro lado, o lado anímico e psicológico. Se eu tenho uma equipe que é mais tolerante a essas fases de desconforto, eu tendo a ter uma equipe mais forte emocionalmente também para os momentos adversos do jogo. Ou num momento em que preciso retomar a posse de bola, sofrer para marcar, para agredir novamente o adversário, para tolerar os minutos finais de um jogo pegado, num clássico, contra um adversário direto fora de casa. O objetivo dos trabalhos é esse. Não tem como desassociar os processos estabelecidos daquilo que é o modelo de jogo do treinador, baseado em toda a necessidade e toda a cultura que tem o clube.

Temos visto ele pedir um gás final aos jogadores justamente nos últimos minutos dos treinos físicos, dizendo que é nessas horas que algum adversário descansado vai aproveitar.
– Exatamente. É ter essa consciência corporal alta e também coletiva de saber que em determinadas situações você vai ter que ter uma tolerância ao desconforto e à fadiga. Esse é o momento mais adequado, o de pré-temporada, em que a gente não tem jogo. A gente precisa elevar o condicionamento físico, mas permite que a gente leve um pouquinho mais para essas questões físicas, entre aspas um sofrimento, para que eles se adaptem e ganhem lá frente, atinjam um nível de condicionamento maior.

Em que estágio os jogadores se apresentaram e em que momento da temporada você imagina que eles estarão no ápice?
– A evolução é progressiva, não tem como prever quando essa evolução se dará, porque futebol é muito complexo, muitos fatores contribuem para isso, resultados positivos, resultados negativos, outras situações do externo. Temos que deixar a equipe pronta já para a primeira partida do Paulista, mesmo que ela ainda não esteja num modelo ideal, porque no Palmeiras você tem que vencer, independentemente se o jogo é em casa ou fora. Se é uma equipe postulante ao título, dominante, tem que entrar para vencer, independentemente da ocasião, da fase da temporada.

E sobre os atletas?
– Os atletas voltaram num nível bem adequado, é claro que há uma perda de condicionamento, que é incentivada pelas férias, porque o atleta precisa diminuir um pouco sua carga de treino, até pelas condições mentais, para suportar uma temporada dura que teremos a seguir. Há uma redução incentivada dessa carga, porém há uma orientação também de atividade durante as férias que o Núcleo de Saúde e Performance elaborou para esses atletas, e eles fizeram. A gente percebe que os atletas reduziram o condicionamento, mas vieram numa condição muito boa. Exige ainda uma situação de recovery dessa condição física. Por outro lado, impressiona a capacidade atlética desses atletas. O lastro atlético de força, fisiológico, tende ao longo da temporada, quando se estabilizar, representar uma diferença positiva.

Você tem ficado muito próximo do trabalho em campo também, conversando não só com os outros profissionais, mas também com os atletas. É algo pontual, de pré-temporada, ou seu estilo de trabalho mesmo?
– Nós acreditamos num método sistêmico, holístico, o desenvolvimento do todo. Somos profissionais de futebol. O futebol é o campo de jogo. O Vanderlei brinca que tem que ter cheiro de grama. Eu, particularmente, não consigo entender ou enxergar o futebol de maneira desassociada, um coordenador científico que atue só no bastidor, no estabelecimento dos processos. Pelo contrário. Se a gente pensa nas ciências do futebol de uma maneira holística, o futebol tem cunho físico, fisiológico, mas tem cunho técnico, tem cunho tático, tem cunho mental, tem cunho social, tem cunho psicológico, cognitivo. A gente tem que procurar otimizar, fazer a interação de todas essas áreas, é o que a gente chama de transdisciplinaridade, não interdisciplinaridade. Invadir um pouquinho a área e incentivar que cada um invada um pouquinho a área do próximo, de maneira respeitosa, para que haja o debate. E o debate, sim, ter uma linha comum, com uma cara, um DNA de Palmeiras.

– Então, eu procuro estar no campo porque é ali justamente onde as coisas acontecem. Se a gente vai fazer um planejamento de ordem fisiológica, é ali que vamos perceber a manifestação do atleta, a incorporação à carga, como está sendo a adesão, a socialização dele com outros atletas, com os membros da comissão, se aquele treinamento vai impactar de acordo com a suplementação prevista pela nutricionista, se está sendo de acordo com a orientação do médico em termos de restrições parciais, de acordo com o histórico recente. Como nós somos profissionais, e futebol é pautado em complexidade, aleatoriedade, não é uma atividade linear, a sensibilidade a essa percepção é muito importante. Não vejo outra maneira, senão atuando, auxiliando não só com os profissionais de comissão técnica, mas atuando também diretamente com os atletas.

Como foi seu trabalho com o Luxemburgo no Vasco?
– Como coordenador científico, sou um facilitador do fluxo de informações. Sou um guardião dos processos, tenho que promover a transdisciplinaridade. Ela passa pelas questões técnicas e táticas, passa também por uma comunicação efetiva com o treinador e com o auxiliar técnico. O que eu posso falar do Vanderlei, apesar de ser um treinador há bastante tempo na praça, com bastante rodagem, um treinador longevo, é um treinador de vanguarda. Se for perceber, quantas vezes ele está do lado do fisiologista controlando a carga de treinamento em tempo real pelo GPS? O GPS é um recurso novo, inclusive o Palmeiras foi o clube de vanguarda, que começou a utilizar em 2015. Hoje, a maioria dos clubes está utilizando. Mas você vê que ele incorpora, ele já atua de maneira direta, fazendo intervenções no treinamento dele com informação tecnológica em tempo real. Somente um treinador atento a questões tecnológicas, de vanguarda, atuaria. Eu vejo o Vanderlei um treinador à frente do seu tempo por conta dessas questões. Ele consegue ter um entendimento do todo. A visão dele é holística, ele sabe o quanto diversas situações podem impactar dentro do campo de jogo.

A questão do DNA, de montar uma equipe dominante, isso te foi pedido pelo Luxemburgo?
– Claro que, num primeiro contato direto já com o Luxemburgo, isso foi apresentado, pelo conhecimento que ele tem já de Palmeiras, conhecendo as situações internas e externas, tudo isso que influencia no modelo de jogo da equipe. Mas também já daquilo que é estabelecido como normas, condutas e processos não só da Academia como também do Núcleo de Saúde e Performance apresentado pelo Dr. Magliocca (Gustavo Magliocca, chefe do departamento), pelo Anderson Barros (executivo de futebol), recém-chegado, mas também pelo Cícero (Souza, gerente de futebol). Já estamos atentos a essas situações, procurando moldar o trabalho de acordo com essa exigência do clube.

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