ligacearense.com.br

Liga Cearense de Futebol Society | Liga Futsal de Fortaleza




Colunas

26/03/2018 - 21:19:00

Nunca houve um louco como Houseman

O ídolo que marcou um gol bêbado e nunca abandonou suas convicções


    Warning: Invalid argument supplied for foreach() in /home/federacc/public_html/modulos/colunas/vercoluna.php on line 36
Não dá para dizer que a gambeta nasceu com ele, mas há provas de que ela só viveu feliz ao lado dele. Como o sobrenome sugere, Houseman serviu de lar para todo drible, para uma malandragem ainda legítima, para o futebol em estado bruto. Mas Houseman também foi casa involuntária de tantas outras perdições, dos vícios e desenganos que tentam qualquer vivente.

O jogador habilidoso que caminhou pelos corredores mais sombrios que a vida tem. E o homem que tocou espinhos com os pés descalços, como nos tempos em que corria pelos campinhos de terra de sua favela. A villa Bajo Belgrano, bairro carenciado da capital Buenos Aires, foi o lugar de onde René veio e para onde ele jamais deixou de ir. “Se eu fosse milionário, compraria uma favela só pra mim”, disse certa vez.

Quem se aproximou dos comuns travando a eterna luta contra os próprios demônios, também se distanciou na desigual proporção de seu talento. Porque mesmo para quem possui o dom de ser craque, algo reservado a poucos de nossa espécie, não é todo dia que se marca um gol em estado de total embriaguez. E René Houseman o fez, simples como apenas ele poderia. O ponta que preferia correr a vida com as meias arriadas, desleixadamente estacionadas pouca coisa acima da linha dos tornozelos, conhecia os truques para enganar seus marcadores: tanto os do campo quanto os da noite.

Véspera de jogo importante. O Huracán receberia o River Plate no Palácio Ducó no domingo e no sábado El Loco tinha o primeiro aniversário do filho. Sempre querido por quem o acompanhou, pediu e recebeu autorização da diretoria para chegar mais tarde na concentração. O combinado era o retorno às onze da noite, mas ele convenceu os funcionários do Globito que foram buscá-lo a afrouxarem esse limite. Então, à uma da manhã, os mesmos homens retornaram e levaram Houseman embora.

Ao chegar na concentração, ensaiou qualquer desculpa improvisada sobre umas chaves esquecidas. Prometeu que iria até sua casa para buscá-las e voltaria para descansar. Ele voltou, mas apenas no dia seguinte. Às onze horas da manhã do dia do jogo, o carro dirigido por El Loco manobrava sem sentido – até bater – no portão do estádio do Huracán. “Quando apareci, os dirigentes não queriam que eu jogasse, mas eu lhes disse: ‘Esperem até que eu durma uma sesta e depois nós vemos’. Eu dormi duas horas, fui para o campo, fiz o gol, pedi a substituição e fui dormir. Não aguentava mais.” contou aos jornalistas poucos dias depois.

Houseman era esse tal de loco lindo, gíria que os argentinos utilizam para quem possui um grau inofensivo de insanidade, ou talvez prejudicial apenas para quem a carrega. De coração villero, o egoísmo nunca foi parte de seu perfil. No futebol de outros tempos, só recebia 100% do salário quem jogava, os reservas não utilizados tinham direito apenas a metade dos vencimentos. E aí El Loco também tinha um drible guardado para ajudar os companheiros. Quando faltavam cinco minutos para o final do jogo, simulava uma lesão ou algum desconforto que obrigava a substituição. E aí quem entrava em seu lugar recebia o pagamento integral.

Veio ao Brasil em 2014 para cobrir a Copa do Mundo e não vestiu terno, não se hospedou em hotel de luxo e nem apertou mão de dirigente algum. Ele, campeão do mundo em 1978, estava a convite da excelente revista La Garganta Poderosa, publicação que se dedica a dar voz às pessoas que vivem nas favelas argentinas. Houseman passou os dias entre o Santa Marta e a Cidade de Deus, e somente nesses lugares ele se sentia bem. Observava um campeonato entre favelas vestindo uma camiseta não oficial da seleção argentina estampada com o rosto de Luciano Arruga, jovem morador de uma villa da grande Buenos Aires assassinado em um violento caso de abuso policial.

Por isso, em dias assim, quando um Loco desses morre, a gambeta também faz uma pausa e toma um descanso. Nos despedimos de Houseman com a certeza de que esta é apenas mais uma das suas. Outra breve escapada da realidade. Logo ele reaparecerá por aqui, talvez até ligeiramente embriagado, para festejar um gol na tarde domingo e rindo até cair.



Federação Cearense - © Copyright 2018. Todos os direitos reservados. Melhor Visualização na resolução 1024 x 768.