ligacearense.com.br

Liga Cearense de Futebol Society | Liga Futsal de Fortaleza




Colunas

05/10/2017 - 13:57:00

Medo e ambição

.


    Warning: Invalid argument supplied for foreach() in /home/federacc/public_html/modulos/colunas/vercoluna.php on line 36
Nesta minha um tanto longa caminhada, uma das poucas lições tiradas foi a de que o ser humano se move sob dois impulsos básicos: medo e ambição. Transportado isso para o futebol que é, no fundo, um teatro da vida (contrariando o meu amigo Muricy e o amigo do Pinochet, Felipão), onde se reproduzem todos os estereótipos do nosso dia a dia, o medo e a ambição se configuram no jeito de um time jogar, no conceito adotado de acordo com a visão dos cartolas, dos técnicos e dos jogadores, os atores do espetáculo, enfim.

Há os que são presas do medo, e correm pra casinha, trancam portas e janelas, acendem uma vela para suas divindades particulares e esperam que uma bola vadia lhes salve o emprego e a alma.

E há aqueles que, que feito o lobo mau das fábulas, passam o tempo todo soprando furiosos as portas das casinhas bem guarnecidas, pois é o que a ambição da conquista lhes determina.

No mundo, esses dois exemplos de comportamento se reproduzem desde sempre, com a esmagadora predominância dos ambiciosos sobre os medrosos. Claro que, vez por outra, dependendo das circunstâncias e do acaso, um medroso consegue obter o resultado implausível. É o bastante pra que isso provoque um alarido enorme com grandes repercussões entre as massas, em geral, compostas por gente oprimida pelo medo da vida  e da morte, que lhes são tão cruel, no imaginário coletivo.

No futebol brasileiro, desde seus primeiros passos até coisa de vinte anos atrás, privilegiava  o engenho, a arte e a ousadia para obter o resultado.

Mas, de uns tempos pra cá, o tal resultado a qualquer custo passou a ser o imperador do jogo entre nós. E o resultado ganhou outra fisionomia: em vez da ambição de vencer, o medo de perder.

Entre outras coisas, porque o técnico de futebol por aqui sobrevive numa corda bamba frágil, capaz de se romper a duas ou três derrotas seguidas, assim como o cartola, torcedor insano e sempre temeroso de perder prestigio, segue a regra do jogo: pra satisfazer o desejo de sangue das massas, entrega-lhes de cara a cabeça do treinador.

Trata-se de um círculo vicioso, a dança macabra à qual já se referia muitos anos atrás o saudoso Francisco Sarno, ex-jogador e treinador, autor de um dos primeiros livros de um brasileiro sobre futebol: A Dança do Diabo.

E o pior é que a mídia esportiva, pretensamente formadora de opinião pública (isto é: quem deveria, com isenção e sabedoria, mandar suas mensagens bem embasadas ao torcedor em geral), também entrou na dança. Condena, é verdade, o rodízio vertiginoso de técnicos nos clubes. Mas, ao mesmo tempo, desenvolve teorias e fórmulas mágicas das disposições dos times em campo que, de fato, avalizam esse conceito defensivo que transformaram nosso futebol num jogo cinzento, opaco, chato de se ver, com suas fórmulas aparentemente científicas, modernas, os tais 4-1-4-1. 4-2-3-1 e que tais, como se o futebol real fosse um pebolim.

É claro que, no decorrer de uma partida, todas essas formulações ocorrem em tais ou tais circunstâncias, pois os caras correm, trocam de posição etc., desde sempre.

Quem revir cenas gravadas do célebre jogo entre Brasil e Hungria em 54, haverá de ver um instante em que Maurinho, o Flecha Negra, atacante nato, ponta-direita deslocado naquele jogo para a extrema-esquerda, combatendo o ponta-direita da Hungria, Toth, lá na sua própria lateral, no bico da grande área. Assim como vimos outro dia Neymar, no PSG, tomando a bola do atacante adversário na mesma situação.

Mas, o que faz nossa mídia? Por absoluta ignorância, vivendo à base de clichês, apregoa que um ponta marcar o lateral adversário é puro exemplo de modernidade. Traduzindo: isso é bom.

E a visão regressiva, leva ao extremo de chamarem  atacantes de meias, meias de volantes, e assim caminha essa turminha pra trás, como se esse fosse o destino do futebol e da humanidade. Isso vai se impregnando nos torcedores, sobretudo os que estão surgindo agora.

Mas, quando um time ataca pelo lado e o jogador cruza para a área adversária, onde você precisa procurar com lupa mais de um ou dois companheiros, faz-se um silêncio mortal a respeito.

Ora, num futebol cujo única forma de atacar é por meio de cruzamentos à área inimiga, o mínimo que se espera é a presença maciça de atacantes lá onde a bola vai cair. Exatamente o oposto do que ocorre.

E ocorre por quê? Pelo medo generalizado de levar o contragolpe. Então, a turma prefere ficar aqui atrás, à espera da tal segunda bola, outro vício brasileiro, mas sempre prevenida com a possibilidade de o adversário sair jogando, do que se aventurar a fazer o gol lá na zona do agrião.

Lembro sempre de um papo que tive com Cafu, o nosso recordista em Copas do Mundo, quando maior era a grita contra ele na Seleção. Diziam que não sabia cruzar, na mesma época em que era um dos principais assistentes do futebol italiano jogando pelo Milan, então ainda um time ofensivo, contrariando o tradicional catenacccio (leia-se retranca).

Resposta de Cafu:

-Olhe quantos atacantes do Milan estão na área quando cruzo e olhe quantos do Brasil.

Essa é a imensa diferença, por exemplo, quando nos  comparamos com um City, um Barça, um PSG, um Bayern ou até um Celta, um Watford, um Leverkusen, times de menor expressão. Quando essa turma ataca, ataca mesmo, não fica ali  titubeando entre ir ou vir, no meio do caminho.

E o passe, a essência do jogo coletivo? É comum nossos formadores de opinião insistirem na inutilidade da maior posse de bola, resultado da troca de passes. É inútil quando ela se processa na zona defensiva de um time, sem maior objetividade. Mas, é vital quando ela se desenvolve como preparação dos ataques, envolvente e insinuante.

O brasileiro adora os atalhos em tudo na vida. Quer enriquecer rapidamente, aos 20 anos de idade, sem construir pacientemente um patrimônio; quer pegar o diploma sem rachar o bico diante dos livros noites adentro; atravessa fila com a maior cara de pau, sob o pretexto de que tem algo mais importante a fazer, avança pelo acostamento nas estradas entupidas  e assim vai.

No futebol não é diferente. O passe exato e bem concatenado, paciente e exato, é substituído por aquelas inúteis enfiadas de bola para o atacante marcado a ferro e fogo, quando não pelos chutões lá de trás, na esperança de que a segunda bola (outra vez, ela!) venha a ser útil em algum sentido.

Portanto, quando faço essas comparações do nosso futebol atual com o que se pratica no primeiro mundo dessa especialidade, não me refiro tanto à qualidade técnica dos jogadores ou ao poder financeiro deste sobre aquele. Nada disso, refiro-me à mentalidade vigente.

Claro que um Messi, um CR7, um Neymar, um Robben fazem uma grande diferença.

Mas, em contrapartida, aqui, as individualidades se equiparam, com vantagem deste ou daquele.

Então, é perfeitamente possível romper essas amarras do medo e buscar um futebol mais ofensivo, mais agradável de se ver, mesmo que isso possa causar a demissão deste ou daquele treinador. Afinal, isso é o que acontece rotineiramente, com medo ou não. E o que está demitido aqui  hoje estará ali amanhã empregado. Logo, quem romper esse círculo de giz encantado, vai virar rei, meu.

E não é essa a ambição de todos nós, no mais recôndito da alma?

NA LINHA DO GOL

Confesso que sou adepto da velha máxima anarquista segundo a qual meu povo é a humanidade inteira, minha pátria é o mundo todo e minha bandeira é o sol. Utopia, bem sei, como tantas outras que abracei na juventude. Pois, entre outras coisas, o tribalismo está impressa na alma da humanidade. É o que faz as pessoas se matarem por uma bandeira, uma religião, uma etnia, até mesmo por um clube de futebol, sem falar pelos que morrem por um cifrão.  (Só não consigo entender essa matança rotineira nos EUA de um sujeito que sobe no telhado de uma igreja, invade uma escola, ou se posta numa janela de edifício e promove matanças como essa última em Las Vegas).

Mas, voltando à vaca fria, entendi e até me comovi com o choro do zagueiro Piqué, ao falar sobre o movimento separatista da Catalunha, pouco antes de ser hostilizado pela torcida madrilenha ao entrar no campo de treinamento da Seleção Espanhola, nesta segunda-feira. Piqué tem a alma dividida: é um ativista da causa da Catalunha, mas é jogador da Seleção Espanhola, juntamente com outros companheiros do Barça, que, por sua vez, é um símbolo de resistência catalã contra o domínio espanhol. Como conciliar essa contradição, às vésperas de uma Copa do Mundo que a Fúria, transformada em Gracia desde que passou a jogar a la Barça, pode perfeitamente reconquistar? Só Piqué, consigo mesmo, pode decidir.

Federação Cearense - © Copyright 2017. Todos os direitos reservados. Melhor Visualização na resolução 1024 x 768.